O preconceito é uma realidade que permeia nossa sociedade desde tempos imemoriais. De acordo com o dicionário, essa palavra designa um julgamento prematuro, uma atitude preconcebida em relação a um indivíduo ou grupo, antes mesmo de se adquirir um conhecimento adequado sobre eles.
Apesar de haver um amplo debate sobre intolerância religiosa, questões ligadas às comunidades LGBTQIA+ e racismo, frequentemente não refletimos sobre um dos preconceitos mais antigos, senão o mais primário: aquele direcionado às mulheres.
É paradoxal que, sendo as mulheres as únicas capazes de gerar vida, elas sejam frequentemente marginalizadas e difamadas de diversas maneiras, o que me causa profunda tristeza ao abordar esse tema. No entanto, é fundamental fazê-lo.
Como mulher e, além disso, como homossexual, carrego um fardo ainda mais pesado. Durante muito tempo, vivi à sombra de mentiras que tentavam moldar minha identidade de acordo com as expectativas sociais, e confesso que não sei qual aspecto da minha identidade – ser mulher ou homossexual – me torna mais vulnerável ao preconceito. Na minha vivência, como mulher homossexual, frequentemente me deparo com as inseguranças masculinas. O problema reside na crença arraigada de que não encontrei o homem ideal ou que fui mal amada, e por isso busco relacionamentos com mulheres. Em sua maioria, embora existam exceções, os homens têm a convicção de que precisam ser mais fortes, mais inteligentes, e não devem demonstrar fraqueza ou assumir papéis considerados “femininos”, como cuidar do lar ou ser afetuosos. Eles afirmam que seu maior fetiche seria se relacionar sexualmente com duas mulheres, mas temem “perder” uma parceira para outra por sentirem-se incapazes.
Nesse contexto, me pergunto: onde nos tornamos objetos que podem ser “ganhos” ou “perdidos” por outrem? Outra confusão recorrente é a ideia de que, ao me relacionar com mulheres, eu desejaria ser homem. É importante esclarecer que uma coisa não tem relação com a outra; se assim fosse, eu seria transexual, não homossexual. Confesso que me sinto um pouco perdida com a diversidade de nomenclaturas e classificações que surgiram ao longo do tempo, mas é fundamental reconhecer que nem toda mulher que ama outra deseja ser homem. Posso não ser o epítome da feminilidade, mas jamais teria o desejo de ser um homem.
Levei tempo para me aceitar e deixar de viver em mentiras. Demorei para perder a vergonha de quem sou e para me libertar do papel de vítima. Embora existam muitas pessoas que realmente enfrentam o preconceito, não devo me colocar nessa posição, nem permitir que outros o façam.
Quando algo é unilateral, perde sua força; é uma questão de energia. A energia é cíclica e, ao faltar reciprocidade, ela se dissipa rapidamente. Não que seja fácil lidar com a ignorância de alguns, mas é fundamental compreender que aqueles que são primitivos e despreparados para viver em sociedade são eles, e não nós. Nossas oportunidades são iguais, mas os obstáculos que enfrentamos são diferentes. O que se destaca é o ser humano que decide ser resiliente diante da adversidade.
Assim, ao invés de me deixar consumir pela raiva ou pela tristeza diante do preconceito, procurei transformar essa energia em algo construtivo. A luta pela minha identidade se tornou um motor de mudança, não apenas para mim, mas para todas as mulheres que enfrentam desafios semelhantes. O que antes era um espaço de dor e insegurança, agora é um campo fértil para o empoderamento e a solidariedade.
É fundamental que cada uma de nós, independentemente de nossa orientação sexual ou identidade de gênero, encontre força em nossa singularidade. Precisamos nos unir, compartilhar nossas histórias e criar uma rede de apoio. A visibilidade é uma arma poderosa contra o preconceito; quando falamos abertamente sobre nossas experiências, desmistificamos as ideias errôneas que circulam por aí. O diálogo é o primeiro passo para a mudança, e cada conversa que temos pode abrir portas para a compreensão e a aceitação.
Além disso, é imperativo que educamos as novas gerações. Precisamos ensinar nossos filhos e filhas a respeitar as diferenças, a celebrar a diversidade e a ver as pessoas como indivíduos, não como estereótipos. A educação é um pilar essencial na luta contra o preconceito. Se conseguirmos cultivar um ambiente onde o respeito e a empatia sejam valores fundamentais, teremos a chance de transformar não apenas as nossas vidas, mas a sociedade como um todo.
E, acima de tudo, devemos lembrar que cada um de nós merece amar e ser amado, sem medo ou vergonha. O amor, em suas diversas formas, é uma força que deve ser valorizada e celebrada. Não precisamos nos encaixar em moldes tradicionais ou buscar a aprovação dos outros para vivermos plenamente. A autenticidade é um ato de resistência e, ao abraçá-la, estamos não apenas reivindicando nosso lugar no mundo, mas também inspirando outros a fazer o mesmo.
Portanto, encorajo todas as mulheres, especialmente aquelas que se sentem marginalizadas, a se erguerem e a reivindicarem suas vozes. Não devemos permitir que o preconceito nos defina. Somos fortes, resilientes e dignas de amor e respeito. Juntas, podemos quebrar barreiras, desafiar normas e criar um futuro mais justo, onde todos possam viver livremente e sem medo de serem quem realmente são.

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